Entrevista: A importância da saúde mental na terceira idade.

Outubro é o mês do dia mundial do idoso (1 de outubro) e dia mundial da saúde mental (10 de outubro). Por conta disso, estamos apresentando uma série de artigos sobre saúde mental na terceira idade, e como as influências dos últimos tempos afetam a vivência.

Nesse artigo, entrevistamos a psicóloga Joyce Costa a respeito de vários aspectos e cuidados dentro desse tema, a importância da família no processo e como integrar a saúde mental com outras prioridades fundamentais no cuidado dos idosos.

Joyce Costa, psicóloga clínica, conversou conosco sobre os principais desafios dos cuidados de saúde mental na terceira idade

JI- Como identificar quando um idoso precisa de atenção psicológica?

Joyce – Muitas vezes, temos dificuldades em identificar qual é a real situação de saúde mental do idoso. Isso porque a velhice é cercada de mitos e preconceitos, onde é esperado que com o passar dos anos o idoso se comporte de maneira introspectiva, rabugenta e por vezes até mesmo intolerante. Porém, esse não é um padrão normal ou esperado dentro de um bom funcionamento psicológico. Existem sim variações esperadas que podem variar de acordo com o estilo de vida que o indivíduo praticou ao longo dos anos, assim como a aceitação e readaptação aos novos desafios impostos pela idade.

Deste modo, entendemos que esses muitos desafios a serem enfrentados nessa fase requerem um olhar cuidadoso por parte da sociedade, para que, mesmo com uma grande bagagem de vida, esse idoso consiga se reinventar para manter um bom funcionamento psicológico. Sob esse aspecto, notar que o idoso se isola, que não consegue manter um padrão de socialização fora de casa, que abandona atividades consideradas prazerosas ou que não consegue exercer o mínimo de autonomia em suas tarefas cotidianas requerem que a família e os cuidadores adotem um olhar mais atento e cuidadoso.

JI- Quais estratégias adotar para lidar com idosos que demandam atenção psicológica?

Joyce- A atenção deve estra presente em todas as relações, pois muitas vezes as relações sociais e familiares ficam prejudicadas diante das demandas do idoso. Demandas que além dos cuidados incluem questões relacionadas à carência de vínculos afetivos. A saúde mental do idoso é atravessada por uma série de questões biopsicossociais, que nos exige atentar para problemas relacionados além do declínio da saúde física.

A inserção do idoso em atividades e programas que visam o fortalecimento do vínculo familiar, socialização, aumento de autonomia, atividades físicas prazerosas e até mesmo programas de geração de renda, são bons exemplos de atividades que podem proporcionar ao idoso oportunidade de resgatar sua individualidade autonomia colaborando de maneira positiva para a manutenção e aquisição de uma boa saúde mental.

JI- Como cuidar de quem cuida: Quais os cuidados para com a saúde mental dos cuidadores e familiares?

Joyce- Nem sempre estamos prontos para assumir o papel de cuidador, na maioria das vezes este papel acaba sendo exercido por um familiar que não teve muita escolha e não está preparado para assumir todas as responsabilidades que este papel impõe. O cotidiano desse cuidador é sobrecarregado não apenas por demandas funcionais, mas também pela dinâmica psicológica exercida pela troca de papéis (quem foi cuidado agora passa a ser quem cuida), porém com cuidados bem diferentes dos recebidos anteriormente. Desta forma, o cuidador também necessita de atenção para não ficar sobrecarregado pelas demandas cotidianas e assim manter um vínculo saudável com o idoso.

Esse cuidado pode ser exercido através de grupos de apoio para cuidadores e familiares e da extensão da rede de apoio para o idoso.

JI- Quais os principais aspectos devem ser priorizados no tratamento?

Joyce- Como citado anteriormente, quando se fala da saúde do idoso, muito se preocupa com o declínio da saúde física e pouco da mental. Mesmo quando citada, se limita a aspectos patológicos ligados a comorbidades.

Aspectos ligados à saúde e qualidade de vida, na maioria das vezes, são deixados em segundo plano. Socialização, ressocialização (principalmente pós quarentena), autonomia e o fortalecimento dos vínculos familiares são pontos fundamentais a serem trabalhados para a manutenção de o aumento da qualidade da saúde mental. Grupos de apoio e oficinas são excelentes formas de promover esses aspectos, tratando também os aspectos sociais e comunitários, fortalecendo e ampliando a rede de apoio em torno dos idosos, cuidadores e famílias.

O Idadismo (preconceito com a idade da pessoa) é um fator agravante em todo esse processo?

Joyce- Infelizmente, dentro da nossa cultura são poucos os aspectos que valorizam o idoso, o que por muitas vezes acaba por fortalecer falsas crenças e justificar comportamentos inadequados para com os mesmos. O próprio processo de afastamento do mercado de trabalho, ligado diretamente à capacidade produtiva, faz com que a aposentadoria seja vista como um processo de isolamento e falta de capacidade de produção. Muitas vezes, mesmo que o idoso continue a contribuir financeiramente dentro da família, ele pode se sentir incapaz de contribuir de forma produtiva também, pela capacidade de produzir algo, mesmo que simbólico. A falsa crença de incapacidade de aquisição de novos conhecimentos também permeia as relações dificultando o contato com o novo e a relação com os mais jovens.

Mesmo a identificação de problemas de ordem de saúde mental, como depressão e ansiedade, são dificultados quando são vistos como ‘’chatice da idade’’, ‘’coisa de velho’’ ou ‘’rabugice’’.

São vários os desafios enfrentados nessa fase da vida que requerem um olhar cuidadoso e amoroso não apenas por parte de familiares e cuidadores, mas também da sociedade como um todo. Sempre é possível adaptar (e readaptar) diante de limitações e novos desafios, reinventando assim o jeito de ‘’ser’’ no mundo, sempre que necessário.

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